A aprovação do fim da escala 6x1 pelo Senado é considerada uma conquista histórica para os trabalhadores brasileiros. Para a presidenta do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Mato Grosso do Sul (Sindjor-MS), Suelen Morales, a mudança representa um avanço na busca por mais qualidade de vida, saúde e tempo para o convívio familiar. Ela alerta, porém, que a implementação das novas regras precisa respeitar os direitos já garantidos à categoria dos jornalistas.
“Essa é uma conquista histórica, construída com mobilização, organização e luta coletiva. O nosso tempo de trabalho importa, mas o nosso descanso também. A nossa vida para além do trabalho precisa ser respeitada. Essa vitória merece ser celebrada, mas precisamos continuar mobilizados para garantir que ela se traduza em melhores condições de trabalho, sem perda de direitos”, afirma Suelen.
Os jornalistas têm uma jornada especial prevista na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), de cinco horas diárias para os profissionais abrangidos pela regra, com possibilidade de ampliação para sete horas mediante acordo escrito e aumento salarial. Para a presidenta do Sindjor-MS, o fim da escala 6x1 não pode ser usado como justificativa para ampliar a jornada diária sem a devida proteção dos direitos da categoria.
“Precisamos garantir que o fim da escala 6x1 respeite a jornada especial dos jornalistas e todos os direitos já assegurados pela CLT e pelos acordos e convenções coletivas de trabalho. Mais dias de descanso não podem servir de justificativa para aumentar a jornada diária ou reduzir salários. Essa é uma preocupação que precisa estar presente nas negociações com as empresas”, ressalta.
A discussão também precisa alcançar jornalistas que trabalham em assessorias de imprensa, agências e outros setores, muitos dos quais cumprem jornadas de oito horas ou mais, além de plantões, trabalhos aos fins de semana e feriados. A situação dos profissionais contratados como pessoa jurídica (PJ) ou microempreendedores individuais (MEI) também exige atenção, já que o fim da escala 6x1 não garante automaticamente a esses trabalhadores os mesmos direitos previstos para quem tem vínculo formal de emprego.
Para Suelen, é necessário discutir as condições reais de trabalho de toda a categoria, inclusive de quem enfrenta jornadas prolongadas e disponibilidade constante.
“Temos jornalistas que trabalham em dois ou mais empregos, cumprem plantões, trabalham aos fins de semana e feriados e vivem em uma disponibilidade praticamente permanente. Também precisamos olhar para quem atua como PJ ou MEI, porque o fim da escala 6x1 não garante automaticamente os mesmos direitos de quem tem vínculo de emprego. Precisamos combater a precarização e discutir condições de trabalho que respeitem a saúde e a dignidade desses profissionais”, afirma.
A presidenta também destaca que a discussão sobre o tempo de descanso tem um impacto específico na vida das mulheres jornalistas, que frequentemente acumulam o trabalho remunerado com as responsabilidades domésticas e de cuidado com filhos, pais e outros familiares.
“Para nós, mulheres jornalistas, a jornada não termina quando saímos do trabalho. Muitas vezes, antes mesmo de começar o expediente, já temos responsabilidades com a casa, os filhos, os pais e outros familiares. Precisamos de tempo para cuidar da nossa saúde, ter lazer e conviver com quem amamos. Por isso, também precisamos discutir a divisão justa das tarefas de cuidado. O descanso tem que ser real, e não apenas uma mudança na escala de trabalho”, pontua.
Sindjor-MS defende mobilização da categoria
A aprovação da proposta não significa que todas as mudanças serão aplicadas imediatamente. É necessário acompanhar as etapas legais, os prazos de transição e a aplicação das novas regras. Nesse processo, o Sindjor-MS pretende atuar em conjunto com sua assessoria jurídica para defender os direitos dos jornalistas.
Suelen reforça que os acordos coletivos serão fundamentais para estabelecer e preservar garantias nas relações de trabalho. A presidenta incentiva profissionais de redações, assessorias e agências, além dos que atuam por conta própria, a procurar o sindicato e fortalecer a organização nos locais de trabalho.
“Os acordos coletivos são fundamentais para transformar essa conquista em direitos efetivos no dia a dia dos jornalistas. Por isso, chamamos os profissionais a procurar o sindicato, conversar com os colegas e se organizar nos locais de trabalho onde ainda não existe um acordo firmado. Onde já há negociação coletiva, precisamos acompanhar e defender as garantias conquistadas. É assim que conseguimos construir condições de trabalho mais justas”, afirma.
A presidenta também alerta para a desigualdade de poder entre trabalhadores e empregadores e defende a negociação coletiva como instrumento de proteção da categoria.
“Não podemos acreditar que cada jornalista, sozinho, terá a mesma força para negociar com uma empresa. Existe uma desigualdade de poder nessa relação. Uma promessa individual não oferece a mesma segurança que direitos formalizados em um acordo coletivo e defendidos pela organização sindical. O sindicato ganha força com a participação dos trabalhadores, e é essa união que nos permite negociar e cobrar o cumprimento dos direitos”, destaca.
FENAJ também alerta para a defesa da jornada especial
A Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) também comemorou a aprovação do fim da escala 6x1, destacando os impactos positivos da medida para a saúde física e mental, o convívio familiar e o acesso ao lazer, à cultura e ao estudo.
A entidade alerta, porém, que a redução dos dias trabalhados não pode resultar no aumento da jornada diária dos jornalistas. A FENAJ pretende reunir seu Grupo de Trabalho Jurídico, com representantes dos sindicatos da categoria, para discutir estratégias comuns sobre a aplicação das novas regras e a preservação da jornada especial prevista na CLT.
Para Suelen Morales, a conquista precisa ser acompanhada de mobilização permanente para que o direito ao descanso se converta em melhoria efetiva das condições de trabalho.
“Essa vitória é de todos os trabalhadores, mas a nossa mobilização não pode parar. Precisamos garantir que o tempo conquistado seja realmente destinado ao descanso, à saúde, ao lazer e à convivência familiar. Para isso, é fundamental fortalecer o sindicato, ampliar a participação da categoria e defender cada direito já conquistado. Queremos mais descanso, mais dignidade e mais saúde, sem nenhum direito a menos”, conclui.



Nenhum comentário:
Postar um comentário